Bruno Marcelino elabora montagens onde a construção do suporte volumétrico da pintura, o substrato físico da massa cromática, as impressões coloridas e a dimensão linguística do título dos trabalhos se articulam de modo significativo. Os materiais, formas, operações, visualidades e léxicos recorrentes na prática do artista compõem uma matriz de produção onde referências da arte construtiva são juntadas com tipologias e meios vernaculares de construção. Desse modo, alguns de seus trabalhos podem remeter a imagens e processos da história da arte, mas também a imagens do comércio popular e saberes produtivos de fabriquetas de comunicação visual, funilarias e marcenarias semiartesanais. 

O artista atua no campo que emerge a partir destes cruzamentos, porém não abandona o seu compromisso com o jogo a partir de elementos intrínsecos ao modo de ser da arte. Não obstante, também não subtrai do seu horizonte as relações com o contexto social. Nesse sentido, o seu trabalho pode ser descrito como uma reflexão sobre a descontinuidade inerente à modernização brasileira, mas a partir do nível molecular: mediante a investigação de meios produtivos que se inscrevem nas lacunas parciais desse processo. Isto é, lá onde os subprodutos da modernização ganham corpo através de atividades econômicas que reúnem processos e materiais industriais com costumes, saberes e sensibilidades que emergem no seio da vida social popular, ou então,  lá onde se entrelaçam modelos ocidentais de linguagem e produção com recursos materiais e práticas culturais tradicionais.

A partir disto Marcelino organiza linhas de trabalho que consistem no desenvolvimento de diferentes modelos de produção. Cada um deles é peculiar, mas é também estruturalmente análogo aos demais, pois todos são determinados por cortes e impedimentos quase sistemáticos, ao mesmo tempo em que são permeáveis a alteridade, pois acolhem e seguem impulsos de errância e desvio, se transformando incessantemente.  Este jogo estrutural vai aos poucos sedimentado uma linguagem comum entre suas várias linhas de trabalho, centrada na articulação entre regras de construção, dinâmicas de sensibilização estética e conteúdo semântico crítico.

A linha de trabalho chamada Projeções pode ser um exemplo dessa articulação decantada na fase atual da pesquisa de Marcelino. Nessa linha o artista recolhe galhos e gravetos encontrados na rua e utiliza este material como régua para traçar suas composições. A operação gera resultados contradizentes em relação a vontade de ordenação implícita no processo compositivo, pois a organicidade dos galhos estremece a função de apoiar e conduzir o traço. Tal configuração da operação de riscar dificulta intencionalmente o controle e a previsão dos resultados gráficos. Assim, os descompassos da abstração e do pensamento projetivo em relação a resistência dos materiais, aos meios de produção e a sensibilidade do corpo situado - já presentes em fases anteriores - são salientados.

O artista busca aprofundar esse conjunto de registros deslocados quando nomeia esta e outras linhas de trabalho na sua fase atual com termos extraídos de glossários e dicionários corporativos, financeiros e comerciais que, no entanto, descrevem com eloquência literal as suas formas, as suas operações de construção, os seus aspectos estéticos e semânticos. Essa estratégia salienta a disseminação e naturalização da linguagem econômica, ao mesmo tempo em que resiste a sua lógica inerente de supressão da complexidade social, material e sensível da vida.

Ao apontar o vocabulário corporativo e empresarial para o corpo material, procedural e sensível de seu trabalho e produção, Marcelino realiza uma operação que contraria a abstração produzida por este tipo de linguagem. Ele condiciona o sentido dessa linguagem a sua própria prática artística e aos seus produtos, portanto, a um processo que  explora experiências sensíveis como fonte de um trabalho reflexivo acerca dos modos de ver e conhecer o mundo.